7 de julho de 2009

AUGUSTO BOAL

(1932-2009)


*Teresinka Pereira

Naqueles anos
de exílio
não qualificado
de "tortura"
encenávamos
o absurdo da vida
em um festival de teatro
na Califórnia.
O absurdo nos fazia
denunciar
a ditadura militar
sem aceitá-la.
Hoje me entregas
uma quota de absurdo
que não me permite
negá-lo: tua morte.
Sentiremos tua falta,
companheiro Boal,
para sempre.


*Teresinka Pereira

6 de julho de 2009

Dois bares giram enlaçados

*Francisco Inácio Peixoto


As amarguras se encontravam,
somos três pensando em ti.

Eu desenho o teu retrato
no pano sujo e rasgado
que cobre a mesa do bar.

Os músicos derrotados
tocam coisas muito tristes.
Se a noite não fosse aqui,
talvez fizessem chorar.

A lembrança vai crescendo
com as rodelas do chope,
Se derrama pelas mesas,
Sobre as mulheres sem dentes,
Sobre os homens sem amor.

E eles e elas giram,
giram as flores dos cabelos,
palavrões e giram os copos
e no Bar 49,
em torno de teu retrato

Gira, gira, gira tudo,
gira em torno do gigante,
que me acarinha e sorri.
Gira o bar e gira a Lapa,
gira orquestra, gira a vida,
giragirando por ti.

Em São Paulo, havia noites
e tu ficavas no bar.
Luís Saia e os rapazes
conversadinho contigo,
eu ficando a te escutar.

Será triste o Franciscano,
será deserto sem ti.
Osvaldo, Iglesias, Fernando,
Nunca mais beber ali.

Oto, Carlos, Pelegrino,
Dantas Motta, Rubião
Figueiró, Paulo e Jair,

Clemente, Ernande, Bueno
Luiz Saia, irmãos pequenos,
Não mais beber ali não

17.03.1945
*Francisco Inácio Peixoto
(05.04. 1909 – 08.01.1986)

23 de junho de 2009

Ronaldo de Melo

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Um poema


*Francisco Inácio Peixoto


Na ponta da rua precisamente suburbana
um homem sofre de angina-pectoris e morre.
Para vós que não o conheceste
É mister, em lágrimas no entanto insofismáveis,
Balbuciar este nome: Mário.
Ai! não me pergunteis mais nada
que ao verso meu, duro e esquivo,
traria um urgente insulto, a palavra áspera.

Deixai que chore, embora continueis ignorando.
Deixai que relembre e chore.
Mas apressai-vos também não vos detendes se quiserdes
guardar o último gesto das mãos enormes,
o último sorriso da boca enorme
Na Rua Lopes Chaves um número se dissolve,
uma casa se dissolve na bruma paulistana.
Das paredes somem-se quadros, os livros desaparecem
das paredes imponderáveis.
Em frente, a máquina portátil ainda guarda a
[palpitação da última poesia ou talvez derradeira
carta.
Se subirdes a escada estreita, vereis depois que não
[há mais escada
só o tropear dos pés aflitos, e as caras que
[indagam sem compreender.
Tudo se evola, mas permanece em nevoa espêssa
[a angústia impressentida
e dois sonos subitamente desamparados do amor
[enorme
das mãos enormes.
A hora morta a paisagem submarina
recebe em seu seio como uma estranha flor de coral
o caixão imenso que flutua,
que flutua na concha noturna de algas desfeitas.
Solitário é agora nosso passo na Rua do Gazômetro.

Solitária e triste é nossa sêde nos bares insones.
Embarquemos na Estação da Luz ou na Estação do Norte
que norte não há mais, nem luz
para o nosso súbito deserto.

Publicado em O Jornal em 08/04/1945 (Domingo)

*Francisco Inácio Peixoto
(05.04. 1909 – 08.01.1986)

20 de abril de 2009

Cena do moço viajante

*Francisco Inácio Peixoto
- Não se avéxe seu moço, se apeie
E entre pra dentro de casa
Nem que seja pra um dedo de prosa...
Se descance do bruto estirão
Que o sol está quente de morte!
Se apeie seu moço, quê isso!
Não custa esperar um tiquinho...
Vou agora lá dentro e já volto,
Dar ordem de trazer pro senhor
Um cuité d'agua fresca da talha.
E o moço seguindo viajem
Se despediu contente do homem
Mais da filha dêle tambem
E estalando com a lingua saíu
Pensando -nem é bom de pensar!
Que gôsto dágua teria
Aquéla agua da mina gostosa
Si fosse bebida na concha
Das duas mãos tão cheirosas
- Mais limpas muito mais frescas
Que um cuité bem raspado -
Daquéla virgem formosa...

*Francisco Inácio Peixoto
Cataguases - MG
(05.04.1909 - 08.01.1986)

Sem caixão, por favor

*José Antonio Pereira

Nasci de cabeça para baixo
brotando de humano ventre.

Permitam-me o caminho contrário.

Nada de brancos linhos
nem negras mortalhas.
Não me encaixotem.

Enterrem-me de pé e nu.

Deixem que a mãe Terra
reabrigue seu feto
em teu morno ventre.

*José Antonio Pereira (Cataguases – MG)

Poema imposible


*Cláudio Sesín

Al final de la fiesta, lo inminente.
No fim da festa,o iminente.
La luna empequeñece lo pensado.
A lua faz pequeno o imaginado.
Hay ausentes cruzando la penumbra
Há ausentes que cruzam a penumbra
y huellas del amor y destinos perdidos.
marcas do amor e destinos perdidos.
Hay ausentes sin alma y nadie que reclame
Há ausentes sem alma e ninguém que reclame
cuánto tiene la murte de abandono.
o quanto tem a morte de abandono.
!Alegrarime, madre, madrecita!
Alegrarime, mamãe, mamãezinha!
!Cómo van a alegrarse corazones
Como pode alegrar-se um coração
si el aguardiente es fuego entristecido!
se a aguardente é fogo entristecido!

*Claudio Sesín (San Fernando Catamarca ARG)
Tradução de Anderson Braga Horta