21 de agosto de 2011

Um texto de Fábio Leite


Minha timidez


Tímido, mas como Salomé, a queria de bandeja.     Cortada, laminada, inteirinha, pronta para meu de-leite.      Ela?    Bem, ela queria ser olhada, elogiada, cortejada.    Mas como fazê-lo?     Minha profunda timidez, não o permitia.  
Um lado do cérebro desejando, babando apetite... o outro comandando a língua para falar de livros, filmes, cds, coisas que nem li vi ou ouvi.       O maldito papo cabeça.   
Ela levantou-se, me olhou, após um sorriso e um muxoxo me deu um seco oi! e partiu.  
 E eu?   Eu.  Perdi mais uma.

Fábio Leite
Publicado no Chicos 24 – Dezembro 2009  Um poema

8 de agosto de 2011

Em “Os olhos vesgos de Maquiavel” Fernando Cesário usa o homem para homenagear a mulher


Marcelo Lopes*
“Cristine me fascinava especialmente por algo nos olhos. (...) Mas havia qualquer coisa de extraordinário no modo como me espreitava”.(Os olhos vesgos de Maquiavel)
Lolita, do escritor russo Vladimir Nabokov, um dos romances mais polêmicos da literatura, conta a paixão de um homem muito mais velho por sua enteada adolescente, linda, sensual e audaciosa. O escritor cataguasense Fernando Cesário está lançando seu mais novo romance, Olhos vesgos de Maquiavel, em que um professor de meia idade, se apaixona por uma de suas alunas adolescente, linda, sensual e audaciosa. As semelhanças entre as duas obras, no entanto, terminam por aí. A moça em questão tem tambémmuito de Capitu, a personagem de Machado de Assis em Dom Casmurro. Apesar de ser contada por um homem, nesta história ele é apenas coadjuvante, porque tudo gira e acontece em torno desta estudante, motivo que o  levou a compartilhar conosco esta sua experiência afetiva. Ao fim e ao cabo, podemos dizer que o livro é, sem dúvida, uma sensível homenagem à mulher.
Em Olhos vesgos de Maquiavel Fernando Cesário apresenta-nosVicente, que narra com a quase precisão de um diário, seu envolvimento com uma moça muito jovem, Cristine, quetem atitudes e reações próprias de quem já adquiriu experiência e maturidade. O autor expõe em detalhes os conflitos interiores do narrador e suas limitações, mostrando em contrapartida e subliminarmente, o poder que a mulher exerce nas relações amorosas.“Já trazia consigo a pimenta de uma mulher (...) Aos poucos, no entanto, se abeirava de volta a menina...” Cristine não é apenas forte e segura de seus atos. Ela é a síntese do que representa hoje a mulher em um relacionamento afetivo. “...ela, inalterada e plácida, não parecia se preocupar mi­nimamente, revelando extraordinário poder sobre suas emoções e impulsos”. É esta personalidade forte, distinta que nos faz crer que Cristine seja metade Lolita, metade Capitu. A primeira, mais volúpia e prazer, e a segunda, mais racional e estrategista, condições indispensáveis para compensar sua pouca idade e tomar as rédeas da situação.
Estamos, certamente, diante da melhor obra de Fernando Cesário, que anteriormente nos brindou com o premiado“Alma de Violino” e que agora posso dizer, sem medo de errar, era o prenúncio do que estava por vir com este excelente“Olhos vesgos de Maquiavel”. Um livro enxuto, denso, e que oferece uma leitura prazerosa nos impulsionando a seguir adiante nas memórias de Vicente sobre seus sentimentos por Cristine, além de revelar suas fraquezas, medos, certezas e tudo o mais que envolve paixões avassaladoras. “O invisível é o ensaio do medo, o invisível”. E se todos nós um dia, vivenciamos uma paixão, ler este romance permite voltar os olhos para as nossas lembranças e, involuntariamente, nos vemos em determinadas situações narradase,inconscientes,acabamos por fazeruma catarse de nós mesmos. Para quem acompanha a obra de Cesário, “Olhos vesgos de Maquiavel” não apenas confirma o grande escritor que é, como também pode ser considerado um divisor de águas em sua literatura, cada vez mais íntima, precisa e singela.
*Marcelo Lopes é jornalista e historiador.

Um poema de Emerson Teixeira Cardoso


Símiles 


La clausura de las palabras en su estado diccionario,
la soledad de los cementerios cuando no hay entierros,
el silencio de las iglesias y monasterios,
la desolación de las calles cuando hace frio y es noche,
el sueño del trabajador que descansa de lo que hace...

Todo evoca la paz del servicio público detrás del expediente,
el silencio completo de sus salas con aire acondicionado apagado.

   Traducción: Ronaldo Cagiano

Publicado por Claudio Sesín y Alberto José Acosta (Editores) em: http://navegantesdelacruzdelsur.blogspot.com/



30 de julho de 2011

CHICOS 31 - Julho 2011


Esta é edição número 30 da Chicos.
 e-zine literária de Cataguases.
Para ler online, baixar ou imprimir é só clicar em: Chicos 31

8 de junho de 2011

Vanir: Pássaro noturno

Lembro-me de ti, amigo,
descendo ladeiras, matadouros,
seguindo avenidas, enfrentando labirintos,
para encontrar o belvedere
próximo à bomba d’agua,
e ali edificar teus sonhos,
contabilizar teus segredos.

Por que não sorves mais uma colherada daquela sopa,
que agora esfria no fogão?
Tens pressa, amigo,
para seguir com o rio
que corre nos fundos do quintal?
Leva contigo as dores e a velha canção de amor!

Deixes o sangue que renovavas
à medida que alongava os passos,
liberta-te da carga tóxica:  avesso do rio.
Lembro-me do teu andar despido
e tuas mãos entrecruzadas nas costas,
enquanto vislumbravas pequenos tesouros
às margens dos paralelepípedos.

Teu assovio reverbera
onde não há mais palavras,
nesse lugar inominável chamado ausência.



Mas o amigo, deitado sobre o volumoso diário de su’alma,
seguiu o curso metafísico do adeus.

Tão enigmática era a leitura,
 nem mesmo a deusa Jose
penetrou o insondável de tua alma.

Enquanto avançavas
rumo ao desconhecido
 na extensa reta à sua frente
ao  teu lado galopava um menino,
para recolher-lhe o corpo.
Assim despido, leve, como a hóstia divina,
num impulso, alçou seu voo noturno.

Voa, pássaro noturno,
 Tens nas mãos o teu destino: ser ave de junho
nesse dia que nunca acaba.

Mas sei que enxugas as lágrimas de Jose,
Ela ficou sozinha no castelo,
ainda não lhe nasceram asas.

Lembro-me de ti, meu amigo,
daquele raro sorriso que davas
ao final do dia,
gargalhada austera contra os mistérios da morte.

Escuto seu assovio, enquanto
 todos nós, junto com Jose,
maldizemos a noite que
caiu sobre  teu corpo
como um feixe de punhais.

E na curva desse Lete
em que se transformaram tuas artérias,
 tudo agora é memória e saudade.

Amanhã também direi: lembro-me de ti, pássaro noturno,
Ave plural na imensidão do etéreo.

Eltânia André Escritora, nascida em Cataguases. 
Autora do livro de contos: : Meu Nome Agora é Jaque