24 de junho de 2008
Meia Pataca - Guilhermino Cesar
O conquistador chegou cansado
e batisou com o ouro da cobiça
a terra que lhe prometia
um punhado de coisas tentadoras
MEIA – PATACA!
Vieram mais gentes
porêm não havia mais ouro
no rio de aguas feias.
Vieram outras gentes.
Cataguazes... a cidade cresceu
O Pomba tem barcos de nome estrangeiro
brincando no dorso barrento.
O Meia – Pataca ficou desdeixado
pobre riozinho que se esconde
e passa de longe medroso.
- Olhando o rio esquecido
eu penso no ouro que sumiu
e no ouro que ficou pra sempre
no coração da minha gente.
18 de junho de 2008
O doente - Guilhermino Cesar
Doente de poesia
não tem alívio nem cura
a menos que se interne
sozinho
no espaço incriado.
No diamante não serve ; é
demasiado claro.
Convém-lhe o resguardo
dos recém-nascidos:
olhos no escuro
vômito contido.
O mais é deixá-lo
gemer à vontade.
Muito
não tem alívio nem cura
a menos que se interne
sozinho
no espaço incriado.
No diamante não serve ; é
demasiado claro.
Convém-lhe o resguardo
dos recém-nascidos:
olhos no escuro
vômito contido.
O mais é deixá-lo
gemer à vontade.
Muito
Entre nós - Guilhermino Cesar
Do absurdo a poesia
vem
se a lógica não lhe tira as asas
- ou Vossa Mercê espera a poesia enterrada
no abismo
de uma cartola?
Só o absurdo pode explicar o que
a poesia jamais acabou de escolher
o que ela não quer achar
para continuar a ser.
vem
se a lógica não lhe tira as asas
- ou Vossa Mercê espera a poesia enterrada
no abismo
de uma cartola?
Só o absurdo pode explicar o que
a poesia jamais acabou de escolher
o que ela não quer achar
para continuar a ser.
Muito antes da manhã - Guilhermino Cesar
Muito antes da manhã, o poeta,
animal astuto,
pula da placenta para ver o mundo.
As abelhas lhe oferecem
prazeres hindus no abdômen de uma
rosa. O poeta se maravilha.
Depois, no leito de cimento, um cavalo no cio
Esmaga a distância, muito naturalmente,
com as patas. O poeta quase desmaia
de espanto.
E grita: - Onde os pró-anjos?
Mas como não existem pró-anjos, em seu auxílio
salta a cozinheira ostrogoda,
toda besuntada de óleo de baleia.
O poeta, coitado, foge para Pequim,
mas no caminho encontra o absinto
sob a forma ogival de uma polaca
vesga.
Ora bem. Toma o primeiro jato
para a Tasmânia – dizem-na tranqüila.
Ali desembarca, cheio de bugigangas,
num avião de plástico.
Animal astuto, o poeta.
Oculta no espaço
a ignorância de si mesmo.
animal astuto,
pula da placenta para ver o mundo.
As abelhas lhe oferecem
prazeres hindus no abdômen de uma
rosa. O poeta se maravilha.
Depois, no leito de cimento, um cavalo no cio
Esmaga a distância, muito naturalmente,
com as patas. O poeta quase desmaia
de espanto.
E grita: - Onde os pró-anjos?
Mas como não existem pró-anjos, em seu auxílio
salta a cozinheira ostrogoda,
toda besuntada de óleo de baleia.
O poeta, coitado, foge para Pequim,
mas no caminho encontra o absinto
sob a forma ogival de uma polaca
vesga.
Ora bem. Toma o primeiro jato
para a Tasmânia – dizem-na tranqüila.
Ali desembarca, cheio de bugigangas,
num avião de plástico.
Animal astuto, o poeta.
Oculta no espaço
a ignorância de si mesmo.
Viver no ácido - Guilhermino Cesar
Soledade - Guilhermino Cesar
Cem parelhas de bois; cem mercadores núbios;
Cem prostitutas do Mangue, há muito enterradas
na areia de Copacabana: cem lagartos de língua
pensa; donzelas (cem) com seus véus e a sua
gula de mais vida: cem velhas de Erexim nas
pirâmides do Egito; cem loucos furiosos e cento
e dez besouros num só quarto. Cem magnólias
ao luar de algum lugar; um sapo, um sapo, um
sapo.
E o homem?
Viver
Cem prostitutas do Mangue, há muito enterradas
na areia de Copacabana: cem lagartos de língua
pensa; donzelas (cem) com seus véus e a sua
gula de mais vida: cem velhas de Erexim nas
pirâmides do Egito; cem loucos furiosos e cento
e dez besouros num só quarto. Cem magnólias
ao luar de algum lugar; um sapo, um sapo, um
sapo.
E o homem?
Viver
16 de junho de 2008
O defunto - Guilhermino Cesar

O pijama suado
esconde no armário
o trabalho da morte.
Deixou nome, deixou filhos
deixou casaco de couro
e pote de brilhantina.
Deixou pátria, deixou cheques
(serão pagos, não se assustem),
deixou bermuda vermelha.
Deixou ainda:
Sabão (escassos) na pia
máquina de barbear enferrujada
livro aberto
boca fechada.
esconde no armário
o trabalho da morte.
Deixou nome, deixou filhos
deixou casaco de couro
e pote de brilhantina.
Deixou pátria, deixou cheques
(serão pagos, não se assustem),
deixou bermuda vermelha.
Deixou ainda:
Sabão (escassos) na pia
máquina de barbear enferrujada
livro aberto
boca fechada.
E ainda: cuecas
sapatos de rua e de festa
um colete azul-ferrete
a caspa
o cheiro
os pés inertes
sapatos de rua e de festa
um colete azul-ferrete
a caspa
o cheiro
os pés inertes
Na conta corrente encerrada
(veja a briga da família)
um corpo lavado
que tarda.
(veja a briga da família)
um corpo lavado
que tarda.
Ilustração Altamir Soares
Campeiro de Minas Gerais - Guilhermino Cesar

Campeiro mulato de sol
Você que dormiu
sem medo de bruxos, sacís-pererês
botando a cabeça fervendo de amores
no couro estendido...
Você não ouve ali perto
de dia de noite
a barulheira da boca da mina?
São filhos da nossa terra também.
Largaram a boiada no morro
serenatas nas ruas familiares
e foram pra noite de ferros tinindo
procurar a lua de metal
escondida nas montanhas duras
saltando depois nos cadinhos...
Você não está ouvindo o ruído dos pilões na baixada
triturando a pedra que vem do fundo
nos vagonetes ligeiros ?
triturando a pedra que vem do fundo
nos vagonetes ligeiros ?
E aquele suor que os companheiros estão suando...
A gente pensa que é sangue
mineiro campeiro!
Eles deixaram a casa sonhando riqueza
e agora estão magros e feios.
Como você dorme bem
cansado das lidas campeiras.
Eles nem podem dormir sossegados:
a mina não fica sozinha um momento.
Mineiros que saem
mineiros que vêm
as máquinas sempre rodando.
Campeiro queimado de sol
vai ver o trabalho dos seus companheiros
nas galerias de ar frio
na noite constante!
Mineiro das minhas Gerais
você não acorda?
Vai ver o trabalho dos outros mineiros
dos mineiros-mineiros enterrados na mina
ouvindo os patrões em fala estrangeira
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